Opinião

Proteção para umas, aperto para outros? O dilema do vagão exclusivo em Salvador

A decisão de reservar um vagão do metrô de Salvador exclusivamente para mulheres nos horários de pico precisa ser analisada para além do discurso político e ideológico, posto em vigor em período eleitoral. Olhando para a realidade de quem utiliza o transporte diariamente, existe uma pergunta que não pode ser ignorada: o bem-estar no transporte coletivo deve ser de todos ou ser prioridade de parte dos passageiros? 

A medida, que passou a vigorar no agosto lilás do Governo do Estado, nos períodos de maior movimento, das 6h às 9h e das 17h às 20h, de segunda a sexta-feira, com um dos carros de cada composição destinado prioritariamente às mulheres, vem provocando aperto desnecessário nos outros vagões, comprometendo a logística da ida e volta dos baianos, diante da disputa por espaço na sofrida circulação dos usuários.

Para efeito comparativo e visando à funcionalidade do sistema, nenhum metrô das grandes metrópoles mundiais, e nem tão pouco o de Salvador, circula com sobra de capacidade. Pelo contrário, o sistema opera com mais de 400 mil passageiros transportados diariamente, em uma estrutura formada por 22 estações, duas linhas e dez terminais integrados.

Um exemplo emblemático está na Estação Águas Claras. Antes da inauguração da nova Rodoviária de Salvador, a estação recebia aproximadamente 45 mil passageiros por dia útil. Depois da integração com o novo terminal, esse número saltou para 58 mil, um crescimento de 27%. Isso é uma pequena demonstração, comparada a um trem em sua capacidade, sem retirar um dos carros da utilização geral justamente quando a demanda está no ponto máximo.

Não é necessário ser especialista em transporte ferroviário para entender a consequência básica: se a quantidade de passageiros continua elevada e o espaço disponível para parte deles diminui, a pressão sobre os demais vagões aumenta.

“O trem não fica maior porque um vagão recebeu uma placa dizendo que é exclusivo. O passageiro masculino também paga pelo transporte.”

Outra questão que não foi levada em conta pelo estado é: o passageiro homem também é usuário do metrô.

Ele trabalha.

Ele estuda.

Ele paga passagem.

Ele enfrenta os mesmos atrasos.

Ele fica em pé.

Ele espera o trem.

E, principalmente, ele também precisa conseguir entrar no vagão para chegar ao trabalho ou voltar para casa.

Quando o sistema está cheio, não existe espaço mágico aparecendo dentro da composição. Se um carro passa a ser reservado, os demais passageiros precisam ser acomodados nos outros carros. Isso acontece justamente nos horários em que o sistema recebe a maior concentração de usuários.

Não se trata de colocar homens contra mulheres, trata-se de uma questão simples de capacidade operacional.

Se o Governo da Bahia e a prefeitura de Salvador entende que é necessário reservar um vagão, então deveria apresentar publicamente os estudos que demonstram que os demais carros possuem capacidade suficiente para absorver a demanda sem aumento relevante da lotação.

Até agora, o debate público tem se concentrado na justificativa da segurança das mulheres, enquanto uma pergunta operacional permanece praticamente sem resposta:

Diante da situação constrangedora para todos, parece contraditório que a resposta para um problema de segurança seja dividir ainda mais um espaço que já é disputado por centenas de milhares de pessoas diariamente.

“Se existe assédio, o Estado precisa combater o assédio. Se existe importunação sexual, o criminoso precisa ser identificado, retirado do sistema e responsabilizado.” Se existe falta de segurança, é preciso aumentar a fiscalização.”

O Estado não pode transferir para o passageiro a responsabilidade de resolver um problema que é de segurança pública.

Transformar o homem, de maneira genérica, em uma ameaça que precisa ser afastada para que as mulheres possam viajar é uma simplificação perigosa.

“O problema não é o sexo masculino. O problema é o homem que comete o crime.”

Para isso, seria muito mais eficiente investir em câmeras, agentes de segurança, fiscalização, campanhas educativas, identificação dos criminosos e punição efetiva.

O objetivo deveria ser tornar todo o metrô seguro, e não criar um vagão seguro enquanto os demais continuam sujeitos aos mesmos problemas.

“Políticas públicas precisam ser avaliadas pelos seus resultados, promovendo segurança, igualdade e bem-estar para todos, sem criar novos problemas enquanto tentam solucionar os antigos.”

 

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