Política

PF suspeita que Toffoli seja beneficiário de fundo que recebeu R$ 35 milhões de Vorcaro

Um relatório da Polícia Federal levantou suspeitas de que o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), possa ter sido o beneficiário final ou proprietário de fato de um fundo de investimentos que recebeu ao menos R$ 35 milhões do banqueiro Daniel Vorcaro, investigado no caso Banco Master. Segundo o documento, posteriormente, cerca de R$ 34 milhões foram transferidos para uma holding registrada nas Ilhas Virgens Britânicas.

O fundo Arleen tinha participação no Tayayá Resort, em Ribeirão Claro, no Paraná, empreendimento ligado à família de Toffoli. De acordo com a investigação, em 2025 o controle do fundo passou para o empresário Alberto Leite, apontado como amigo do ministro e proprietário da empresa de segurança FS Security. A PF afirma ter identificado elementos que, analisados em conjunto, levantariam a possibilidade de Toffoli ter figurado como beneficiário final ou proprietário de fato do fundo e de seus ativos.

O relatório também aponta que, em março de 2025, Alberto Leite registrou uma holding nas Ilhas Virgens Britânicas. No mesmo período, o regulamento do Arleen foi alterado para permitir investimentos no exterior. Meses depois, aproximadamente R$ 34 milhões foram transferidos para a empresa estrangeira. O gabinete de Toffoli negou que o ministro possua recursos no exterior e afirmou que ele jamais realizou qualquer operação nas Ilhas Virgens Britânicas.

Mensagens citam pagamentos ligados ao resort

As suspeitas da PF também estão relacionadas a mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro, apreendido durante a prisão do banqueiro em novembro de 2025.

Em agosto de 2024, Vorcaro teria procurado Fábio Faria, apontado no relatório como operador político, e informado que entraria em contato com Toffoli. Pouco depois, enviou uma mensagem ao ministro perguntando se poderia encontrá-lo.

Na mesma sequência de conversas, Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, afirmou que o dinheiro estaria “no fundo dono do Tayayá”. Segundo o relatório, posteriormente Zettel informou sobre pagamentos de R$ 20 milhões e R$ 15 milhões, encerrando a conversa com a afirmação de que o “Tayayá” estaria resolvido. A PF, contudo, ressalta que não conseguiu determinar se a referência dizia respeito ao Arleen ou a outro fundo que também tinha participação no resort.

Investigação também aponta possível influência em julgamento

Outro ponto considerado pela PF envolve o julgamento de uma ação relacionada à destilaria Alcídia, que cobrava da União indenização por prejuízos ocorridos na década de 1980.

O caso tinha importância para o Banco Master porque poderia afetar uma carteira de precatórios do setor sucroalcooleiro avaliada em mais de R$ 10 bilhões. Segundo o relatório, mensagens trocadas por integrantes ligados ao banco demonstrariam preocupação com o julgamento.

A investigação chama atenção para uma mudança de posição atribuída a Toffoli. Dias antes do julgamento da Alcídia, o ministro havia votado contra uma usina em processo semelhante envolvendo a Raízen. No caso da Alcídia, porém, acabou votando favoravelmente à empresa.

Nas mensagens analisadas pela PF, Vorcaro teria escrito que “Toffoli virou o voto” e, posteriormente, afirmou que estava “tratando” do assunto. A PF destacou que essas mensagens ocorreram em meio às conversas sobre a necessidade de os envolvidos se movimentarem em relação ao julgamento.

Apesar disso, o próprio relatório ressalva que os elementos ainda necessitavam de aprofundamento e não eram suficientes para conclusões definitivas. O gabinete de Toffoli negou qualquer alteração de voto e afirmou que o ministro teria votado da mesma maneira no processo envolvendo a Raízen.

PF identifica possíveis encontros entre Toffoli e Vorcaro

O relatório também registra pelo menos 12 referências a encontros, convites e agendamentos envolvendo Toffoli e Vorcaro.

Entre os registros está um encontro que teria sido marcado para março de 2024 na região do Lago Norte, em Brasília. Segundo a PF, Toffoli teria enviado um endereço residencial a Vorcaro e marcado a reunião para as 9h. Na manhã seguinte, o banqueiro teria informado que estava a caminho e que chegaria cerca de 15 minutos atrasado. O ministro teria respondido: “Tranquilo”.

Para a Polícia Federal, o endereço era compatível com a região indicada como residência de Toffoli, sendo considerada “plausível” a hipótese de que Vorcaro tenha visitado o ministro no local.

Outro episódio citado envolve um possível encontro no Tayayá. Segundo as mensagens analisadas, Fábio Faria teria informado a Vorcaro que Toffoli havia marcado um almoço na “fazenda dele”, com a participação de Bruno Dantas, do Tribunal de Contas da União. A PF avaliou que a referência geográfica indicada nas mensagens correspondia ao resort localizado no Paraná.

Toffoli nega relação de amizade e recebimento de dinheiro

Em manifestação divulgada antes da publicação das informações, o gabinete de Dias Toffoli negou que o ministro tivesse relação de amizade ou intimidade com Daniel Vorcaro.

Toffoli também negou ter recebido dinheiro do banqueiro ou de Fabiano Zettel e afirmou que não mantém recursos no exterior. Sobre sua participação em evento em Londres citado no relatório, o gabinete informou que a presença ocorreu a convite do ministro Alexandre de Moraes.

O relatório da PF foi encaminhado ao Supremo porque Toffoli era o relator das investigações relacionadas ao Banco Master. Segundo a reportagem, uma arguição de suspeição contra o ministro chegou a ser analisada pelos integrantes da Corte e acabou arquivada em fevereiro de 2026.

O caso, no entanto, voltou ao centro das atenções após a divulgação do relatório policial, que reúne mensagens, movimentações financeiras e registros de encontros que, segundo a PF, ainda precisam ser analisados de forma aprofundada.

A própria Polícia Federal ressalvou que os elementos reunidos não permitem, neste momento, conclusões definitivas sobre a existência de irregularidades envolvendo o ministro.

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