Política

Vorcaro diz que pagava R$ 3 milhões por mês a grupo ligado a Jaques Wagner

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro afirmou, em uma proposta de colaboração premiada posteriormente rejeitada pela Polícia Federal (PF) e pela Procuradoria-Geral da República (PGR), que o grupo político ligado ao senador Jaques Wagner (PT-BA) recebia cerca de R$ 3 milhões por mês em propina na Bahia.

A declaração amplia as acusações envolvendo o Banco Master e coloca no centro da narrativa apresentada por Vorcaro a relação construída ao longo dos anos com integrantes do grupo político baiano. A informação foi divulgada nesta sexta-feira (25).

Segundo o relato atribuído ao ex-banqueiro, os pagamentos fariam parte de um esquema relacionado aos interesses do Master e de seus negócios no estado. A proposta de delação, entretanto, não foi aceita pelas autoridades, portanto as afirmações de Vorcaro precisam ser tratadas como declarações de um colaborador em negociação, e não como prova isolada dos fatos.

Relação com Jaques Wagner

Jaques Wagner é um dos principais nomes citados nas investigações que envolvem o Banco Master. Em junho, o senador foi alvo de busca e apreensão na 9ª fase da Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal.

Documentos analisados pelos investigadores apontaram 74 ligações telefônicas entre Wagner e Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master. A PF também identificou mensagens entre os dois. Em uma delas, Lima escreveu ao senador: “Você mais do que ninguém sabe da minha história e faz parte disso!!”. Para a PF, a mensagem reforça a proximidade entre os dois.

As investigações também apontam que Wagner teria recebido vantagens que incluem um apartamento em Salvador avaliado em aproximadamente R$ 2,5 milhões e cerca de R$ 5,8 milhões em repasses para empresas ligadas à família, segundo documentos divulgados anteriormente. A PF investiga se esses benefícios tiveram relação com a atuação política do senador em interesses ligados ao Master.

Entre os assuntos investigados estão a atuação de Wagner em torno de uma emenda que ampliaria a margem de empréstimos consignados, discussões relacionadas ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e questões envolvendo a tentativa de aquisição do Banco Master pelo BRB.

O papel de Rui Costa

O nome do ministro da Casa Civil e ex-governador da Bahia, Rui Costa (PT), também aparece no contexto apresentado por Vorcaro.

A relação remonta ao período em que Jaques Wagner governava a Bahia. Na época, a estatal Ebal foi privatizada, e um de seus ativos deu origem ao Credcesta, negócio adquirido por Augusto Lima, posteriormente sócio de Vorcaro no Banco Master.

Durante a gestão de Rui Costa, um decreto manteve regras de exclusividade relacionadas aos empréstimos consignados dos servidores públicos estaduais. Segundo informações reunidas sobre o caso, a medida teria favorecido a expansão do negócio do Credcesta e, posteriormente, do Banco Master.

Na proposta de delação, Vorcaro também teria citado Rui Costa e outros integrantes do grupo político baiano. A segunda proposta de colaboração do banqueiro, porém, também foi rejeitada pela PF e pela PGR.

Augusto Lima era um dos principais intermediários

Augusto Lima aparece como uma peça importante na relação entre Vorcaro e políticos baianos.

Ex-sócio de Vorcaro no Master, Lima mantinha contato direto com Jaques Wagner e, segundo as investigações, participou das articulações envolvendo interesses do banco.

Além das ligações telefônicas, os investigadores encontraram mensagens e outros registros que passaram a integrar o inquérito que levou às buscas contra Wagner.

A PF também apura benefícios que teriam sido concedidos ao senador e a pessoas de seu círculo, incluindo imóvel, pagamentos e outras vantagens. Entre os elementos mencionados nas investigações estão ainda viagens em jatos ligados a Vorcaro e ingressos para eventos no exterior.

Um esquema que começou antes do Banco Master

O caso não se limita à atuação do Banco Master nos últimos anos. A origem de parte dessa relação está no Credcesta, produto de crédito consignado que se expandiu a partir da Bahia.

A investigação passou a analisar como decisões tomadas durante os governos de Jaques Wagner e Rui Costa criaram condições favoráveis para a expansão do negócio que posteriormente ficou associado ao Banco Master.

Segundo reportagens sobre o caso, o Credcesta chegou a operar em 24 estados e 176 municípios no fim de 2024, mostrando a dimensão que o negócio alcançou.

Wagner nega irregularidades

Jaques Wagner nega ter recebido propina e afirma não ter relação ilícita com Daniel Vorcaro ou com o Banco Master. A defesa do senador também contesta as acusações e afirma que Wagner não pode ser responsabilizado por conversas de terceiros das quais não participou.

O senador já declarou que pretende provar sua inocência nas investigações.

Assim, a nova informação atribuída a Daniel Vorcaro acrescenta uma acusação de grande dimensão ao caso: segundo o ex-banqueiro, o grupo político ligado a Jaques Wagner receberia R$ 3 milhões por mês. A afirmação faz parte de uma proposta de delação que não foi aceita pelas PGR, enquanto outras evidências como mensagens, ligações, movimentações financeiras e benefícios investigados continuam sendo analisadas no caso Banco Master.

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