Dados da Receita expõem repasses do Banco Master a empresa ligada a Otto Alencar Filho
Há cada revelação no caso do Banco Master, expõe membros influentes à frente da política baiana. Em mais um desenrolar das investigações, documentos da Receita Federal revelam uma teia de relações financeiras ligada a Otto Alencar Filho ex-deputado federal e atual conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE-BA), que recebeu cerca de R$ 12 milhões do Banco Master entre 2022 e 2025.
Otto Filho é filho do senador Otto Alencar (PSD), um dos principais aliados do governo federal na Bahia. Em nota, ele afirmou que os valores recebidos são decorrentes de serviços devidamente contratados, com emissão de notas fiscais e pagamento de impostos, ressaltando que sua empresa atua apenas como investidora, sem função administrativa nas companhias.
O levantamento obtido pelo jornal O Globo junto à Receita Federal, revela uma complexa rede de relações financeiras entre o Banco Master e figuras influentes da política baiana, um cenário que atravessa governo, oposição e o chamado Centrão.
No centro das revelações está a empresa Mollitiam Financeira, ligada a Otto Alencar Filho, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE-BA) e filho do senador Otto Alencar (PSD), um dos principais aliados do PT no estado. De acordo com os documentos, a empresa recebeu R$ 12 milhões do Banco Master entre 2022 e 2025.
Em nota, Otto Filho afirmou que sua holding, a M&A Participação, possui investimentos em diferentes setores e que todos os serviços foram regularmente faturados, com recolhimento de impostos e dentro da legalidade. Ele também destacou que não exerce função administrativa nas empresas em que possui participação.
Pagamentos cruzam espectros políticos
Os registros da Receita Federal indicam que os repasses do Banco Master não se limitaram a um único grupo político. O ex-prefeito de Salvador, ACM Neto (União Brasil), também aparece entre os beneficiários. Sua empresa de consultoria recebeu R$ 5,4 milhões entre 2023 e 2025.
Neto declarou que não teve acesso direto aos dados, mas afirmou que a relação com o banco ocorreu quando nenhum sócio ocupava cargo público. Disse ainda que prestava serviços de análise político-econômica e solicitou investigação sobre o vazamento de informações fiscais.
Outro elo relevante envolve a BN Financeira, que tem como sócia Bonnie Toaldo Bonilha, ligada por vínculo familiar ao entorno do senador Jaques Wagner (PT), líder do governo no Senado. A empresa recebeu cerca de R$ 14 milhões entre 2022 e 2025, sendo metade desse valor apenas no último ano.
A empresa negou qualquer ligação com o senador e afirmou que atuou na prospecção de operações de crédito, com todos os valores devidamente declarados e sem qualquer investigação em curso.
Ex-ministro e conexões nacionais ampliam o alcance
Os documentos também apontam pagamentos à Meta Consultoria, empresa do ex-ministro da Cidadania Ronaldo Bento, que recebeu R$ 6,2 milhões apenas em 2025. Bento atuou no governo Jair Bolsonaro e teve convocação aprovada em CPI por sua ligação com o Banco Pleno, instituição associada ao empresário Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.
Origem do elo com a Bahia levanta novos questionamentos
A presença do Banco Master na Bahia remonta à entrada de Augusto Ferreira Lima na estrutura da instituição. O empresário, preso na Operação Compliance Zero, expandiu seus negócios após adquirir o Credcesta, cartão voltado inicialmente a servidores públicos no contexto da privatização da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), durante o governo Rui Costa.
A operação, segundo o próprio Rui Costa, foi viabilizada justamente pelo modelo de crédito consignado, defendido por ele à época.
Silêncio estratégico nos bastidores
Apesar da gravidade e da abrangência dos dados, o caso tem sido tratado com cautela nos bastidores políticos. Interlocutores avaliam que a exploração do tema pode gerar desgaste tanto para o grupo do governador Jerônimo Rodrigues (PT) quanto para ACM Neto, adversários diretos na disputa pelo governo da Bahia.
Diante disso, teria sido costurado um acordo informal para que o episódio não seja utilizado como arma eleitoral, uma espécie de “pacto de silêncio” que chama atenção pela conveniência mútua.
Quando o dinheiro não escolhe lado
Os documentos revelam mais do que simples contratos: expõem uma engrenagem onde recursos milionários circulam com desenvoltura entre diferentes polos de poder.
Embora todos os envolvidos sustentem a legalidade das operações, o volume dos valores, a simultaneidade dos repasses e a diversidade de conexões políticas inevitavelmente levantam dúvidas.
No fim, o caso Banco Master deixa uma impressão incômoda: quando o dinheiro transita com facilidade entre lados opostos da política, a disputa pública pode até parecer acirrada, mas, nos bastidores, os interesses parecem falar a mesma língua.

