André Mendonça enfrenta pressão de diferentes frentes em investigações que envolvem Lulinha e Banco Master
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), passou a enfrentar uma série de movimentos que podem reduzir sua atuação em investigações de grande repercussão política, segundo análise publicada nesta segunda-feira (24) pelo jornalista Mario Sabino, do Metrópoles.
Mendonça é relator de processos considerados sensíveis, entre eles as investigações envolvendo o Banco Master e as fraudes contra aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O segundo caso também acabou alcançando pessoas próximas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, entre elas, seu filho Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
De acordo com Sabino, o ministro estaria sofrendo pressão simultaneamente de setores do Supremo, da Polícia Federal (PF) e da Procuradoria-Geral da República (PGR). A avaliação do colunista é de que os movimentos teriam como objetivo reduzir o alcance das investigações conduzidas por Mendonça.
Jantar entre Lula, Moraes, Zanin e Alcolumbre
Um dos episódios citados na coluna ocorreu no início de agosto, quando o ministro Alexandre de Moraes recebeu em sua residência, em Brasília, o presidente Lula, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e o ministro Cristiano Zanin.
O encontro durou cerca de três horas e não constava da agenda oficial dos participantes. Segundo as informações divulgadas à época, o objetivo declarado era aproximar Lula e Alcolumbre após o desgaste provocado pela rejeição, no Senado, da indicação de Jorge Messias para uma vaga no STF.
Sabino, porém, afirma que o jantar teria tratado também da situação de Mendonça. A informação teria sido repassada ao gabinete do ministro e atribuída pelo colunista Lauro Jardim, de O Globo, a fontes que apontaram uma discussão sobre maneiras de fragilizar a atuação do relator.
Caso Lulinha está no centro da disputa
A situação ganhou maior relevância porque uma das investigações sob responsabilidade de Mendonça envolve suspeitas de tráfico de influência relacionadas a Lulinha.
O inquérito apura relações do filho do presidente com a lobista Roberta Luchsinger e com Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”. Também aparecem nas investigações referências a Marco Aurélio Santana Ribeiro, ex-chefe de gabinete de Lula.
A defesa de Lulinha nega irregularidades e afirma que houve vazamento ilegal de informações da investigação. Luchsinger também nega envolvimento em práticas ilícitas.
Segundo Sabino, a investigação teria avançado sobre elementos que poderiam esclarecer se Lula tinha conhecimento de uma sociedade mantida por seu filho com Luchsinger e Fernando Bittar. Como presidente da República, Lula possui foro por prerrogativa de função.
PGR quer interferir e levar investigação para a primeira instância
No dia 20 de agosto, o procurador-geral Paulo Gonet pediu a Mendonça que um dos inquéritos envolvendo Lulinha fosse enviado à primeira instância da Justiça.
A justificativa da PGR é que os investigados não possuem foro por prerrogativa de função que justifique a permanência do caso no STF. O órgão também citou precedente da Primeira Turma do Supremo segundo o qual a simples menção a uma autoridade com foro não seria suficiente para manter uma investigação na Corte.
A decisão sobre o pedido ainda cabe a Mendonça.
Sabino chama atenção para o fato de a PGR não ter adotado, até o momento, iniciativa semelhante em relação a outro inquérito envolvendo Lulinha que está sob relatoria do ministro Flávio Dino.
Conflito com a Polícia Federal
A relação entre Mendonça e a Polícia Federal também se deteriorou durante a investigação sobre as fraudes no INSS.
O ministro determinou que a PF encaminhasse ao Supremo os documentos brutos da apuração e que qualquer alteração na equipe responsável pelo caso fosse submetida à sua autorização.
A direção da Polícia Federal resistiu à determinação e levou a questão à Advocacia-Geral da União (AGU), comandada por Jorge Messias.
A corporação sustenta que os delegados possuem autonomia para conduzir as investigações e questiona a necessidade das medidas determinadas pelo ministro.
O impasse levou Mendonça a abrir uma apuração para verificar se o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, teria cometido obstrução da Justiça ao resistir à ordem judicial.
O procurador-geral Paulo Gonet, segundo informações divulgadas anteriormente, não demonstrou intenção de contestar a decisão de Mendonça, embora tenha sinalizado preocupação com uma eventual responsabilização do diretor da PF.
Banco Master amplia tensão no STF
A outra frente envolve o Banco Master, instituição financeira de Daniel Vorcaro que sofreu intervenção do Banco Central em 2025.
Mendonça é o relator da investigação sobre o caso, que envolve pessoas e empresas relacionadas a diferentes setores do poder público.
Segundo Mario Sabino, o ministro teria reunido elementos que poderiam levá-lo a solicitar ao plenário do STF autorização para investigar o ministro Alexandre de Moraes.
A possibilidade estaria relacionada a um contrato de R$ 129 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia da esposa de Moraes, Viviane Barci de Moraes.
Até o momento, não há confirmação pública de que Mendonça tenha formalizado um pedido de investigação contra Moraes.
Pressão ocorre em ano eleitoral
Para Sabino, os diferentes episódios fazem parte de um mesmo contexto político. O jornalista avalia que o avanço das investigações sobre o Banco Master e sobre o caso do INSS poderia provocar consequências para o governo Lula durante o processo eleitoral.
O cenário ganha importância porque o inquérito relacionado a Lulinha está sob responsabilidade de Mendonça e pode eventualmente alcançar fatos envolvendo o próprio presidente da República.
A coluna sustenta que esse contexto explicaria parte da pressão para retirar a investigação das mãos do ministro.
Até o momento, porém, não houve confirmação oficial de que Lula, Moraes, Zanin ou Alcolumbre tenham discutido uma estratégia para afastar Mendonça dos processos.
Também não há confirmação de que o ministro tenha apresentado pedido formal para investigar Alexandre de Moraes.
O que está confirmado é que Mendonça enfrenta simultaneamente disputas envolvendo a PGR, a Polícia Federal e processos de enorme repercussão política. A condução desses casos poderá colocar o ministro no centro de uma das mais delicadas disputas institucionais do STF em meio ao calendário eleitoral de 2026.

