Oito igrejas são interditadas em Salvador por risco estrutural; patrimônio histórico enfrenta deterioração
Templos apresentam rachaduras, infiltrações e problemas em estruturas de madeira; Igreja de São Miguel, fechada há 11 anos, voltou a ser alvo de ação do MPF
Salvador, conhecida historicamente como a “Cidade das Igrejas”, enfrenta uma situação preocupante de conservação de parte de seu patrimônio histórico-religioso. Oito templos foram interditados entre 2025 e 2026 após vistorias da Defesa Civil de Salvador (Codesal) identificarem condições classificadas como de risco alto ou muito alto.
Os problemas encontrados incluem deterioração de estruturas de madeira em coberturas e assoalhos, oxidação de ferragens, infiltrações generalizadas, além de fissuras e rachaduras nas alvenarias. Segundo a Codesal, as condições representam risco à vida de frequentadores e também ameaçam a preservação de imóveis de relevante valor histórico.
Entre os templos que aparecem na relação estão a Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem, Igreja Nossa Senhora da Ajuda, Igreja e Convento dos Perdões, Igreja de São Bento da Bahia, Igreja da Ordem Terceira do Carmo, Convento Santa Clara do Desterro e Capela Sagrada Família. O Convento Santa Clara do Desterro possui interdição parcial.
Igreja de São Miguel volta a acender alerta
O caso mais recente a chamar atenção é o da Igreja de São Miguel, localizada no Pelourinho. O templo, construído no início do século XVIII e tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1938, está fechado há cerca de 11 anos.
Nesta quarta-feira (19), o Ministério Público Federal (MPF) acionou a Justiça Federal para cobrar medidas urgentes de preservação do imóvel. Segundo o órgão, a igreja apresenta sinais graves de deterioração, incluindo problemas no telhado, madeira apodrecida, infestação de cupins, infiltrações, instalações elétricas precárias e áreas da cobertura danificadas.
A ação civil pública pede que a área de risco seja isolada em até 15 dias e que intervenções emergenciais sejam iniciadas no prazo máximo de 30 dias. O MPF aponta responsabilidades da Ordem Terceira de São Francisco, proprietária do imóvel, além do Iphan e dos governos federal, estadual e municipal.
Para o órgão, a importância histórica do templo torna a situação ainda mais grave. A Igreja de São Miguel integra o conjunto arquitetônico do Centro Histórico de Salvador, reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco.
Problema é maior que as oito interdições
Apesar de o levantamento da Codesal destacar oito igrejas por risco alto ou muito alto, o cenário de conservação dos templos históricos de Salvador é ainda mais amplo.
Levantamento anterior mostrou que 12 templos permaneciam interditados total ou parcialmente, incluindo igrejas que passaram por novas vistorias e continuaram impedidas de receber o público. Entre elas estão a Igreja dos Aflitos, a Igreja dos Quinze Mistérios, a Igreja Nossa Senhora da Conceição da Lapa e a própria Igreja de São Miguel.
A Arquidiocese de Salvador também informou que possui pelo menos dez igrejas com algum grau de comprometimento estrutural e que realizava um levantamento para identificar os casos de interdição parcial ou total. Algumas já possuem obras em andamento ou recursos destinados às intervenções.
Tragédia da Igreja de São Francisco expôs problema
A situação ganhou ainda mais atenção depois da tragédia ocorrida em fevereiro de 2025, quando parte do teto da Igreja e Convento de São Francisco, no Centro Histórico, desabou. O acidente matou uma turista e deixou outras cinco pessoas feridas.
Após o episódio, uma força-tarefa envolvendo órgãos de patrimônio e a Defesa Civil intensificou as inspeções em imóveis históricos. A partir das vistorias, diversas igrejas foram interditadas por problemas estruturais.
O caso também revelou um problema antigo: a dificuldade de conciliar a necessidade de preservação de imóveis históricos com os altos custos das obras, a responsabilidade dos proprietários e os processos de autorização e fiscalização dos órgãos públicos.
O Iphan, por exemplo, atua na fiscalização, orientação e autorização de intervenções em bens tombados, enquanto as obras de conservação e restauração, em regra, dependem dos responsáveis pelos imóveis e da obtenção de recursos.
Patrimônio ameaçado
A dimensão do problema chama atenção porque Salvador possui um dos mais importantes conjuntos de arquitetura religiosa do Brasil. Segundo levantamento citado pelo Metro1, a Arquidiocese de Salvador reúne cerca de 589 templos na capital baiana.
O desafio, portanto, vai além de manter igrejas abertas para celebrações religiosas. Trata-se de preservar edifícios que fazem parte da história arquitetônica, cultural e turística da Bahia.
Enquanto algumas igrejas já receberam recursos e iniciaram obras, outras permanecem fechadas e aguardam intervenções. No caso da Igreja de São Miguel, o Ministério Público Federal agora busca na Justiça uma resposta emergencial para evitar que a deterioração resulte em um novo desastre.
A situação coloca novamente em evidência uma questão que Salvador vem enfrentando há anos: quanto tempo um patrimônio histórico pode permanecer deteriorando até que a restauração deixe de ser uma medida preventiva e passe a ser uma corrida contra o desabamento?

