EUA colocam Brasil em lista de países suspeitos de triangulação de produtos chineses
O governo dos Estados Unidos incluiu o Brasil em uma lista de mais de 40 países considerados de risco para a prática conhecida como transshipment, ou triangulação comercial. A acusação ocorre em meio ao aumento das tensões comerciais entre Washington, Pequim e outros países que fazem parte das cadeias globais de fornecimento.
Segundo o governo norte-americano, a prática consiste em enviar produtos de origem chinesa para um terceiro país antes de encaminhá-los aos Estados Unidos. O objetivo seria dificultar a identificação da origem das mercadorias e, em alguns casos, evitar tarifas ou outras restrições comerciais aplicadas pelos americanos às importações chinesas.
O Brasil aparece no nível 2 de risco da classificação americana, ao lado de países como Indonésia, Malásia, Tailândia, Turquia e Vietnã. A avaliação considera a possibilidade de utilização desses territórios como pontos de passagem, armazenamento ou montagem de produtos destinados posteriormente ao mercado norte-americano.
Como funcionaria a triangulação
A triangulação pode ocorrer quando uma mercadoria fabricada na China é enviada para outro país antes de chegar ao destino final. Em situações consideradas irregulares pelas autoridades americanas, podem ocorrer alterações mínimas no produto, troca de etiquetas ou mudanças na documentação para dificultar a identificação da origem chinesa.
O relatório americano também cita países latino-americanos como possíveis corredores logísticos, utilizados para armazenagem, transporte marítimo ou montagem regional de mercadorias.
A Casa Branca estima que entre US$ 40 bilhões e US$ 75 bilhões por ano estejam envolvidos globalmente em operações relacionadas ao transshipment. O governo americano pretende ampliar os mecanismos de fiscalização para identificar essas operações.
Pressão comercial sobre o Brasil
A inclusão brasileira ocorre em um momento de forte tensão comercial entre Brasília e Washington. Os Estados Unidos já adotaram novas tarifas sobre produtos brasileiros e o governo brasileiro iniciou o processo previsto na Lei da Reciprocidade Econômica para avaliar possíveis respostas às medidas americanas.
A situação aumenta a pressão sobre empresas brasileiras que exportam para os Estados Unidos, especialmente aquelas que utilizam componentes ou insumos importados da China.
Caso os Estados Unidos entendam que uma mercadoria chinesa foi apenas redirecionada pelo Brasil para escapar de uma tarifa, o produto poderá ser submetido às mesmas restrições aplicadas aos bens de origem chinesa.
Brasil entre duas potências
A nova classificação coloca o Brasil em uma posição delicada diante da disputa econômica entre Estados Unidos e China, dois dos principais parceiros comerciais brasileiros.
Ao mesmo tempo em que a China é um dos principais destinos das exportações brasileiras, os Estados Unidos permanecem entre os maiores mercados para produtos nacionais. A crescente disputa entre as duas potências pode obrigar empresas brasileiras a reforçar controles de origem, documentação e rastreabilidade das mercadorias.
A medida também representa mais um capítulo da guerra comercial promovida pelo governo de Donald Trump, que vem ampliando mecanismos de proteção do mercado americano e aumentando a fiscalização sobre possíveis formas de evasão tarifária.

