Avanço do mar destrói parte de residência na Praia do Saco, em Estância
Parte de uma residência localizada na Praia do Saco, em Estância, no litoral sul de Sergipe, desabou neste sábado (26) após ser atingida pelo avanço do mar. O episódio, registrado em vídeos por moradores e amplamente compartilhado nas redes sociais, mostra o momento em que o terreno cede e a estrutura do imóvel é engolida pelas águas. Não há relatos de vítimas.
As imagens, mostram a terra começando a deslizar junto à linha da maré, seguida do desabamento do muro da construção sobre o mar.
O episódio não é um fato isolado. A Praia do Saco vem sofrendo, nos últimos anos, com os efeitos crescentes da erosão costeira, processo que ocorre quando uma praia perde mais sedimentos do que recebe, provocando o avanço do mar ou dos rios sobre o solo. Moradores que vivem próximos à orla relatam que o cenário tem se deteriorado com o tempo, com imóveis cada vez mais expostos à maré e sinais visíveis de dano estrutural nas construções.
Um levantamento do Laboratório de Progeologia da Universidade Federal de Sergipe (UFS) dá dimensão ao problema: nos últimos dez anos, as águas do Rio Piauí avançaram 130 metros sobre sua própria margem na região da foz, próxima à Praia do Saco. No mesmo período analisado pelos pesquisadores, a faixa de areia do lado sergipano cresceu 180 metros, evidenciando o remanejamento de sedimentos na área. Já a distância entre a Ponta do Saco (SE) e o Pontal de Mangue Seco (BA) praticamente dobrou desde 1992, saltando de cerca de 3.000 para 5.500 metros.
Segundo o geocientista Júlio César Vieira, pesquisador do Laboratório de Progeologia, a ocupação imobiliária da região, iniciada há cerca de 50 anos sobre uma barra arenosa que originalmente separava a foz de um manguezal, teria contribuído para desestabilizar a dinâmica natural da costa, tornando a área mais vulnerável à ação das marés e ao encontro das águas dos rios Piauí e Real com o mar.
A Defesa Civil de Estância recebeu os registros do desabamento e, em conjunto com a Secretaria de Turismo do município, acionou o plano de contingência para a região. A área ao redor do imóvel atingido foi isolada preventivamente, e os órgãos responsáveis pela rede elétrica também foram mobilizados para intervir em postes e no fornecimento de energia na localidade, evitando riscos adicionais aos moradores.
Em nota, a Prefeitura de Estância afirmou que acompanha de perto a ocorrência e que as equipes seguem monitorando a área diante da possibilidade de novos deslizamentos.
Em ocorrência anterior na mesma praia, o secretário da Defesa Social e Cidadania de Estância, coronel Enílson Aragão, já havia atribuído os desabamentos ao avanço contínuo da maré alta sobre a base de sustentação dos imóveis, descrevendo o processo erosivo como algo que compromete progressivamente a estrutura das casas até o colapso total.
O novo episódio reforça o quadro de vulnerabilidade que atinge a Praia do Saco há décadas. Segundo Camilo de Lelis Ramos, presidente da Associação Comunitária de Moradores da Praia do Saco, o avanço do mar tem se mostrado irreversível na região, com pelo menos 14 casas desocupadas ou destruídas nos últimos anos. Diante da persistência do fenômeno e da ausência de soluções definitivas de contenção, moradores e autoridades locais seguem em estado de alerta permanente, enquanto pesquisadores da UFS continuam a monitorar a dinâmica costeira da área para subsidiar futuras medidas de mitigação.
