STJD pune o Vitória por ofensas da torcida ao zagueiro Wagner Leonardo
O Esporte Clube Vitória foi multado em R$ 30 mil pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) por ofensas da torcida no Estádio Manoel Barradas (Barradão), durante a partida contra o Grêmio, válida pela 6ª rodada do Campeonato Brasileiro da Série A, no dia 27 de abril. O alvo da provocação foi o zagueiro Wagner Leonardo, ex-jogador do clube, chamado de “viado” aos 19 minutos do primeiro tempo.
O episódio foi registrado na súmula do árbitro Felipe Fernandes de Lima e, mesmo sem qualquer participação direta ou incentivo do clube, a Procuradoria entendeu que o Vitória deveria ser punido, com base no artigo 243-G do Código Brasileiro de Justiça Desportiva, que trata de “atos discriminatórios”.
A decisão do STJD foi tomada na tarde desta quinta-feira (31), em julgamento realizado de forma presencial e virtual. Por não ter histórico de reincidência nesse tipo de infração, o Vitória escapou da perda de mando de campo, mas ainda assim terá que arcar com a multa de R$ 30 mil, em uma comparação direta com punições anteriores aplicadas a Corinthians e Palmeiras — ambos reincidentes e multados em valores maiores, de R$ 60 mil e R$ 80 mil, respectivamente.
Cultura do futebol
A punição dos clubes por gritos de arquibancada é algo que ainda faz parte da cultura do brasileiro quando o assunto é futebol. A rivalidade, a provocação e até o exagero momentâneo fazem parte do momento do torcedor, e é automaticamente confundido com discurso de ódio.
Chamar um jogador de “viado”, em meio à tensão de uma partida, pode até ser repreensível sob a ótica de quem preza por uma linguagem polida. Mas será mesmo mais grave do que xingar a mãe do juiz, como ocorre em praticamente todo jogo do país? Por que certos xingamentos são tratados como “parte do jogo” e outros como motivo de condenação pública e multa pesada?
Estamos diante de um moralismo seletivo, que pretende transformar o futebol — um ambiente historicamente popular, livre, espontâneo e imperfeito — em um salão de regras comportamentais progressistas. A arquibancada está virando alvo de censura, onde o torcedor corre o risco de ser punido por simplesmente gritar.
O que está se vendo é o afastamento entre o esporte e sua base cultural. O Vitória foi responsabilizado por algo que não controlou, e pior: por algo que não teve qualquer efeito prático no jogo. O atleta seguiu jogando normalmente, a partida transcorreu sem incidentes, e nenhum ato de violência ocorreu.
Se o futebol vai caminhar para ser uma atividade controlada por cartilhas ideológicas, onde até o grito do torcedor passa por filtro moral, estaremos enterrando a alma desse esporte. Defender o respeito é justo. Impor um padrão comportamental de elite ao povo que vibra, canta e xinga em 90 minutos de emoção é, sim, um exagero — e, mais do que isso, uma afronta à liberdade que o estádio sempre representou.

