Política

Prefeitura de Salvador vai pagar R$ 203 mil por doutorado da vice-prefeita

Em um país onde os gastos da gestão pública é alvo de crescentes questionamentos, a Prefeitura de Salvador decidiu desembolsar R$ 203,9 mil para financiar o curso de doutorado da vice-prefeita e secretária de Cultura e Turismo, Ana Paula Matos (PDT). O contrato, firmado por inexigibilidade de licitação com a Fundação Dom Cabral, foi publicado no Diário Oficial em 9 de maio e será pago com verba da própria pasta que ela chefia.

A justificativa do governo municipal é que o curso integra um programa de qualificação de lideranças e está alinhado ao projeto Salvador Capital Afro, financiado pelo BID. A proposta, segundo a prefeitura, é “deixar um legado de políticas públicas para gestão intercultural, valorização da herança africana e internacionalização da cidade”.

A decisão se torna ainda mais controversa diante de episódios recentes. A Justiça suspendeu o pagamento de R$ 183 mil para o doutorado da secretária da Fazenda, Giovanna Victer, levando-a a assumir os custos por conta própria. O prefeito Bruno Reis, por sua vez, também iniciou um doutorado, mas optou por bancar o curso com recursos pessoais.

A alegação de que Ana Paula Matos permanecerá no cargo até 2028 e que assinou um termo de ressarcimento em caso de saída precoce soa como um paliativo jurídico, mas não elimina o desconforto ético. Afinal, o uso de verba pública para financiar educação de elite, em instituições privadas, levanta dúvidas sobre prioridades e transparência.

O fato de os recursos saírem da Secretaria de Cultura e Turismo — uma pasta que deveria estar focada em fomentar o setor, apoiar artistas, preservar patrimônios e promover o turismo — reforça o tom de crítica. Em uma cidade com desafios sociais profundos e um setor cultural historicamente negligenciado, a destinação de mais de R$ 200 mil para um curso individual parece um luxo injustificável.

Ana Paula Matos tem trajetória sólida: mestre pela UFBA, ex-secretária de Saúde e Promoção Social, e candidata a vice-presidente em 2022. Seu nome é cotado para a sucessão municipal em 2028. Mas é justamente esse histórico que torna a decisão ainda mais delicada. O doutorado financiado com dinheiro público pode ser interpretado como um investimento pessoal com fins eleitorais, travestido de política pública.

A pergunta que fica é: até onde vai à linha entre qualificação de gestores e privilégio institucionalizado? Em tempos de escassez e cobrança por eficiência, a gestão pública precisa mais do que nunca justificar cada centavo gasto, especialmente quando o bolso do cidadão é quem paga a conta.

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