Opinião

Janja ataca evangélicos em filme que critica a ligação entre fé e política

A estreia do documentário “Apocalipse nos Trópicos”, reacendeu a polêmica relação entre setores da esquerda e o público evangélico no Brasil. Em uma das cenas que mais chamaram atenção, a primeira-dama Janja da Silva protagoniza um momento controverso ao interromper o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para associar igrejas evangélicas à violência armada.

A fala ocorre durante a fala de Lula sobre a baixa a aversão dos evangélicos à sua candidatura nas eleições de 2022. O presidente chega a reconhecer o esforço de seu então adversário, Jair Bolsonaro (PL), ao afirmar que “ninguém trabalhou como ele” esse segmento. No entanto, o tom da conversa muda quando Janja intervém, afirmando que havia gente “dando tiro” dentro de igrejas, sugerindo uma ligação direta entre a fé cristã, em especial a evangélica, e episódios de violência, sem comprovação direta.

A declaração foi feita no contexto de um documentário assumidamente político, que critica a ascensão dos evangélicos no Brasil e sua crescente influência no cenário eleitoral. Produzido por Petra Costa, a mesma diretora de “Democracia em Vertigem”, o filme segue a linha de narrativas engajadas que buscam demonizar o campo ideológico adversário, ainda que para isso recorram a generalizações preocupantes.

A fala de Janja, expõe um tipo de preconceito que muitas vezes é mascarado sob o discurso do “combate ao extremismo”: a desconfiança e até o desprezo por uma fé que não se alinha aos padrões da elite progressista, e o pior, não é democrático em respeitar. Ao associar a religião evangélica à violência, a mesma não apenas ignora a diversidade interna desse grupo, como também colabora com uma retórica que desumaniza milhões de brasileiros — especialmente os das camadas mais pobres, cuja fé é uma expressão legítima de identidade e pertencimento.

Se a esquerda deseja, de fato, disputar o campo religioso com seriedade, talvez deva começar a não entender o que os afastam, ao invés de forçar suas a aceitar seus entendimentos. Cenas como a do documentário servem mais para afastar do que aproximar. No fim das contas, a intolerância que se diz combater pode estar mais próxima do que imaginam, inclusive dentro do próprio palácio.

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