Política

Moraes teria organizado eventos de Vorcaro em Londres, aponta a PF

Um relatório da Polícia Federal, com sigilo levantado em 1º de setembro, reúne mensagens extraídas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, que segundo os investigadores indicam a participação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes na organização de dois eventos em Londres: o Fórum Jurídico Brasil de Ideias, de abril de 2024, e uma segunda edição planejada para 2025, que acabou cancelada.

De acordo com o material citado pela PF, interlocutores de Vorcaro atribuem ao ministro um papel ativo nos bastidores dos encontros da aprovação da lista de convidados ao veto a participantes específicos. Cinco dias antes do início do primeiro fórum, o próprio Vorcaro teria descrito a um contato que estava organizando um evento reservado com Moraes na capital britânica.

As trocas também tratam de logística: haveria uma preocupação em separar carros de luxo para os “ministros mais sensíveis”, entre eles Moraes e Dias Toffoli, e em providenciar a passagem aérea do magistrado.

Sobre a lista de convidados de 2024, Vorcaro teria conversado com o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria a respeito de um veto atribuído a Moraes contra um dos participantes. Na avaliação de Faria, reproduzida no relatório, o ministro gostaria que o veto fosse do conhecimento do vetado, ao que Vorcaro haveria concordado que “no final ele vetou mesmo”.

Já na organização da edição de 2025, mensagens mostram o banqueiro orientando a equipe a aguardar sua aprovação, em conjunto com Moraes, antes de enviar convites a nomes como o então presidente da Câmara, Hugo Motta, e o procurador-geral da República à época, Jorge Messias. Em um dos episódios mais citados, a funcionária de marketing do banco sugeriu o presidente do União Brasil, Antônio Rueda, como moderador de uma mesa proposta e rejeitada por Vorcaro, sob a justificativa de que a escolha desagradaria o ministro.

Segundo o relatório, Moraes teria reclamado da desorganização do evento de 2025 e do destaque dado ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, na programação. Dias depois, uma funcionária relatou ao banqueiro ter passado o dia com o ministro e sua mulher, a advogada Viviane Barci de Moraes, ajustando o programa do fórum, que viria a ser cancelado pouco depois, em meio a atritos com a entidade que formalmente organizava o encontro.

Outro trecho do relatório, mencionado por veículos que tiveram acesso ao documento, descreve um pedido atribuído a Moraes para que uma reportagem do Brazil Journal incluísse a informação de que três ministros do STF haviam se reunido reservadamente com o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair. A PF confirma o envio da mensagem por Vorcaro, mas não esclarece se o pedido foi atendido pelo veículo.

Nem todas as coberturas tratam o material da mesma forma. Uma análise do caso publicada pela Agência Pública observa que a PF, ao que se sabe publicamente, não teria recuperado nenhuma resposta enviada pelo próprio Moraes,  as conversas reproduzidas partem do lado de Vorcaro e de seus funcionários, que atribuem falas e decisões ao ministro sem que haja mensagens dele confirmando essas informações. Já o Blog do Dina destaca que os registros de convite, veto e reclamações são atribuídos a Moraes pelos interlocutores do banqueiro, mas não comprovam, por si só, atos praticados pelo próprio ministro.

Vale lembrar que, entre fevereiro e março deste ano, quando vieram à tona outros vínculos entre a família de Moraes e o Master, incluindo um contrato do escritório de sua mulher com o banco.  A assessoria do ministro chegou a divulgar notas negando relação com Vorcaro e classificando reportagens anteriores sobre o tema como tentativas de atacar o STF. Não há registro, até a publicação desta matéria, de uma manifestação específica de Moraes ou de sua assessoria sobre o conteúdo do relatório da PF a respeito dos eventos em Londres.

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