Política

Delegados da PF pedem que Gonet se declare impedido para apurar relatório

A Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) pediu que o procurador-geral da República, Paulo Gonet, se declare impedido de atuar em procedimentos relacionados ao relatório da Polícia Federal que menciona seu próprio nome no âmbito das investigações envolvendo o Banco Master.

A entidade reagiu à abertura, pela Procuradoria-Geral da República (PGR), de um Procedimento de Controle Externo da Atividade Policial para apurar a atuação de delegados da PF na elaboração do documento. Segundo a associação, os policiais apenas cumpriram uma determinação judicial do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).

O relatório foi elaborado a partir da análise de informações extraídas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e posteriormente teve o sigilo retirado por Mendonça. O documento reúne informações sobre contatos de Vorcaro com diferentes autoridades, entre elas o ministro Alexandre de Moraes e o próprio Gonet.

Para os delegados, existe conflito de interesse no fato de Gonet participar da apuração de um relatório no qual ele próprio é citado. A entidade sustenta que a situação justificaria seu afastamento dos procedimentos relacionados ao episódio.

A ADPF também criticou a abertura da investigação contra os policiais federais e defendeu o arquivamento do procedimento. Segundo a associação, utilizar o controle externo da atividade policial para questionar delegados que cumpriram uma ordem judicial pode gerar um ambiente de intimidação dentro da PF.

A entidade afirma ainda que os delegados não tinham competência para simplesmente ignorar ou contestar a determinação judicial que resultou na produção do relatório.

Mensagens envolvendo Gonet

O relatório da PF registra referências a Gonet nas mensagens e contatos analisados no celular de Vorcaro. Segundo informações divulgadas após a retirada do sigilo, o banqueiro não tinha o contato direto do procurador-geral, mas houve interlocuções por meio de terceiros.

Em março de 2025, por exemplo, o advogado Ciro Soares teria enviado a Vorcaro uma fotografia ao lado de Gonet e, posteriormente, encaminhado mensagens atribuídas ao procurador-geral. Também houve tratativas relacionadas a um fórum jurídico que seria realizado em Londres e teria despesas custeadas pelo Banco Master. O evento acabou não acontecendo.

As informações, contudo, não significam, por si só, que Gonet tenha cometido alguma irregularidade. A discussão atual envolve principalmente a necessidade de preservar a imparcialidade de quem participa da apuração.

Crise aumenta tensão entre PF, PGR e STF

O episódio ocorre em meio a uma crise institucional envolvendo integrantes do STF, a Polícia Federal e a PGR após a divulgação de informações da investigação sobre o Banco Master.

Mendonça determinou o levantamento do sigilo de documentos que expuseram mensagens e outros elementos envolvendo Vorcaro e autoridades. A divulgação provocou forte reação dentro do Supremo e abriu uma disputa sobre a forma como a investigação foi conduzida.

Paralelamente, ministros do STF passaram a discutir a própria atuação de delegados da Polícia Federal nos gabinetes da Corte. Gilmar Mendes chegou a sugerir ao presidente do Supremo, Edson Fachin, que delegados da PF deixem de atuar nos gabinetes dos ministros. A proposta também recebeu apoio do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.

A crise, portanto, deixou de envolver apenas as circunstâncias do caso Master e passou a atingir a relação institucional entre STF, PGR e Polícia Federal.

No centro da nova controvérsia está justamente a discussão sobre até onde pode avançar a atuação de cada instituição e, principalmente, como garantir que investigações envolvendo autoridades do alto escalão da República sejam conduzidas sem suspeitas de parcialidade.

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