TCU aponta crise em estatais e coloca Codeba em alerta; Correios acumulam prejuízo bilionário
Um relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) acendeu o alerta sobre a situação financeira e operacional de empresas estatais federais ligadas aos setores de logística, transportes, infraestrutura e serviços públicos. Segundo o levantamento, 11 companhias apresentam sinais de deterioração que podem representar riscos para as contas públicas.
O cenário mais preocupante envolve os Correios, que encerraram 2025 com prejuízo líquido de R$ 8,5 bilhões. A estatal também perdeu espaço no mercado de encomendas e enfrenta dificuldades para colocar em prática seu plano de reestruturação.
Dados recentes citados no levantamento mostram ainda que as estatais registraram saldo negativo de R$ 1,5 bilhão em junho, aumentando a preocupação do órgão de controle com a capacidade de algumas empresas de manter suas operações sem apoio financeiro da União.
Codeba entra na faixa de risco médio
Entre as empresas analisadas está a Companhia das Docas do Estado da Bahia (Codeba), responsável pela administração de portos públicos federais no estado.
De acordo com o diagnóstico apresentado pelo TCU, a Codeba foi classificada na faixa de risco médio, juntamente com as Companhias Docas do Ceará e do Pará. O relatório aponta pressão sobre as margens das empresas em razão do aumento dos custos operacionais e dificuldades relacionadas à capacidade de realização de investimentos em infraestrutura.
A Codeba, entretanto, contestou o diagnóstico apresentado na reportagem e afirmou que a classificação não refletiria sua atual situação financeira.
Em nota, a companhia declarou que é lucrativa, distribui dividendos aos acionistas e teve, em 2025, um dos melhores desempenhos financeiros de sua história.
Segundo a empresa, a posição de liquidez chegou a R$ 331,2 milhões no ano passado, valor que, de acordo com a Codeba, demonstra capacidade para honrar compromissos de curto e longo prazo. A companhia também informou que a liquidez corrente alcançou 720%, enquanto a liquidez imediata chegou a 644%.
A autoridade portuária também apresentou números positivos referentes à movimentação de cargas. Entre janeiro e junho de 2026, os portos públicos baianos registraram crescimento de 22,49% na movimentação de cargas em comparação com o mesmo período de 2025, segundo a Codeba. A empresa afirmou que esse foi o maior volume registrado em um primeiro semestre.
Correios concentram preocupação
A situação dos Correios aparece como um dos principais pontos de atenção do relatório do TCU.
Além do prejuízo de R$ 8,5 bilhões registrado em 2025, a empresa perdeu aproximadamente 30% de participação no mercado de entregas de encomendas entre 2018 e 2025. No mesmo período, a folha de pagamento passou a representar mais de 60% da receita da estatal.
Para enfrentar a crise financeira, os Correios contrataram R$ 12 bilhões em empréstimos com garantia da União no final de 2025. A operação poderá gerar um custo de aproximadamente R$ 34,2 bilhões em juros até 2040, segundo os dados apresentados na reportagem.
A reestruturação também enfrenta dificuldades. O programa de desligamento voluntário havia alcançado 3.748 adesões até abril de 2026, diante de uma meta de 10 mil. Já a venda de imóveis arrecadou R$ 11 milhões, muito abaixo dos R$ 1,5 bilhão inicialmente projetados.
Risco pode chegar às contas do governo
Um dos principais alertas levantados na análise é a possibilidade de algumas estatais deixarem de conseguir se financiar com seus próprios recursos.
Atualmente, os Correios são classificados como uma empresa estatal não dependente. Essa condição significa que seus resultados não entram diretamente na mesma métrica do déficit primário do governo.
O risco, segundo a análise apresentada ao TCU, é que uma deterioração ainda maior obrigue a União a ampliar o suporte financeiro à empresa. Nesse cenário, os problemas da estatal poderiam passar a representar uma pressão mais direta sobre o orçamento federal.
O levantamento também cita outras empresas públicas em situação de atenção, incluindo Infraero, Casa da Moeda, Emgea e empresas ligadas ao setor de energia nuclear.
No setor portuário, além da Codeba, aparecem companhias como a Codern, do Rio Grande do Norte, e a PortosRio, esta última classificada em nível de risco mais elevado.
Apesar do alerta do TCU, a Codeba reforçou que seus indicadores financeiros apontam para uma situação diferente da descrita no relatório.
A companhia afirmou possuir recursos suficientes para cumprir seus compromissos e destacou o crescimento da movimentação portuária na Bahia em 2026.
O caso evidencia uma divergência entre a avaliação de risco utilizada pelo órgão de controle e a interpretação da própria empresa sobre sua saúde financeira. Enquanto o TCU classifica a Codeba em nível de risco médio e aponta desafios relacionados aos custos e investimentos, a companhia sustenta que mantém uma posição financeira sólida e vem apresentando crescimento operacional.
O relatório do TCU reforça, de forma geral, a necessidade de acompanhamento das empresas estatais e dos impactos que eventuais dificuldades financeiras podem provocar sobre os cofres públicos.

