Entretenimento

Publicidade ou provocação? Comercial das Havaianas com discurso ideológico vira alvo de críticas da direita

A nova campanha das Havaianas, estrelada por Fernanda Torres, escancarou algo que já vinha se tornando comum na publicidade brasileira: a tentativa insistente de travestir propaganda comercial de manifesto ideológico. E, nesse processo, a marca conseguiu unir o inútil ao desagradável.

No comercial, a atriz, recentemente projetada no circuito internacional pelo filme “Ainda Estou Aqui”, que revisita o período da ditadura militar, aparece sugerindo que o público não comece o próximo ano com o “pé direito”. O discurso, embalado em uma falsa profundidade motivacional, tenta soar poético, mas termina escorregando numa metáfora pobre, óbvia e provocativa. Não por genialidade, mas por cálculo.

A fala, que rejeita simbolicamente o “pé direito” em favor de uma suposta atitude mais “autêntica” e libertária, foi rapidamente interpretada por setores da direita como uma provocação política deliberada. E, convenhamos, não é exatamente um exercício de imaginação excessiva. Em um país polarizado, com símbolos constantemente disputados, fingir ingenuidade é parte do jogo e talvez a maior imbecilidade embutida na peça.

O resultado foi imediato. Políticos e militantes conservadores reagiram com indignação neste domingo (21/12), acusando a Havaianas de atacar à direita de forma velada e convocando boicote à marca. Nas redes sociais, o tom foi de revolta e denúncia de aparelhamento ideológico.

O deputado bolsonarista e vice-líder da Oposição na Câmara, Rodrigo Valadares (União-SE), foi direto ao ponto ao afirmar: “Havaianas faz campanha política explícita contra a direita. Seguimos firmes na defesa de Deus, pátria, família e liberdade. Por aqui, vamos de Rider, Ipanema, Crocs e outras”.

Já o vereador paulistano Rubinho Nunes (União-SP) elevou o tom ao apontar o que considera o pano de fundo da campanha: “Havaianas escancarou de vez o viés ideológico ao atacar o ‘pé direito’. Nada de surpresa: a marca pertence ao grupo da família Moreira Salles, a mesma que bancou o filme ‘Ainda Estou Aqui’. Transformaram um símbolo brasileiro em panfleto político. Escolheram o pé esquerdo, e o Brasil segue atolado na lama”.

Na mesma linha, a vereadora gaúcha Mariana Lescank (PP-RS) também reagiu, listando marcas concorrentes como alternativa ao consumo: “As Havaianas: pertencem a esquerdistas (família Salles); contratam esquerdistas (Fernanda Torres); discurso esquerdista (sem pé ‘direito’). Então vamos de Rider, Ipanema, Cartago, Olympikus e Crocs, e deixamos as Havaianas para os esquerdistas”.

Independentemente de concordar ou não com as reações, o fato é que a propaganda cumpriu exatamente o papel que parecia desejar: dividir, provocar e gerar engajamento político, ainda que à custa da inteligência do público. Fernanda Torres, que tem talento de sobra e uma carreira respeitável, se presta aqui a um texto raso, presunçoso e ideologicamente carregado, como se estivesse fazendo um favor civilizatório ao espectador.

No fim das contas, não se trata de pé direito ou esquerdo. Trata-se de uma marca tradicional que resolveu abandonar a simplicidade que a consagrou para apostar na militância travestida de criatividade. E quando a propaganda precisa de malabarismo ideológico para chamar atenção, talvez o problema não esteja no público, mas na própria ideia.

 
 

Comentários: