Opinião

O caos do transporte metropolitano de Salvador: o envelhecimento da frota

Mais do que terminais desorganizados ou passageiros amontoados, o verdadeiro colapso do transporte metropolitano da Região Metropolitana de Salvador (RMS) está onde os olhos não veem: na frota sucateada e na logística falha de empresas que ainda resistem, apesar do evidente esgotamento do modelo atual.

Um sistema operado por remendos

Atualmente, cinco empresas são responsáveis pelo transporte metropolitano: Expresso Vitória, Atlântico Transportes, Avanço, Expresso Metropolitano e ATP. Dessas, apenas a Expresso Vitória e a Atlântico tem ampliado suas atuações nos últimos anos — mas não por mérito, e sim por necessidade. Após a debandada de operadoras tradicionais como BTM, Costa Verde, Brisa e Cidade das Águas, a Expresso passou a atender 36 rotas da RMS, assumidas sem licitação formal e com uma frota composta integralmente por veículos usados.

Os ônibus foram adquiridos de outras regiões do país e colocados nas ruas sem readequação adequada, um improviso que escancara a ausência de planejamento do governo estadual. Há inclusive suspeitas de que parte da frota circula sem vistoria atualizada da AGERBA, órgão estadual responsável para liberar e fiscalizar a circulação.

Frota encolhe, problemas aumentam

Relatórios apontam que a frota metropolitana perdeu mais de 25% de sua capacidade entre 2012 e 2022. O envelhecimento da frota é visível: grande parte dos ônibus ainda em operação foram fabricados antes de 2012, com mais de uma década de uso contínuo.

O resultado está nas ruas: veículos quebrados com frequência, portas sem vedação, barulho excessivo, bancos rasgados e ausência de climatização. Os atrasos são regra, e a superlotação atinge níveis alarmantes, especialmente em linhas mais longas como Monte Gordo, Abrantes e Dias D’Ávila, onde passageiros chegam a viajar encostados nas portas.

Linhas extintas, serviço em colapso

O colapso operacional é evidenciado pela extinção de mais de 100 linhas metropolitanas entre 2020 e 2024 — a maioria sem qualquer reposição. A ausência de planejamento logístico, somada à concorrência dos transportes clandestinos, tornou a operação insustentável financeiramente para muitas empresas.

O modelo de integração entre ônibus e metrô, outro ponto crítico, também contribuiu para o rombo. Atualmente, 60% da tarifa integrada fica com a CCR Metrô Bahia, enquanto apenas 40% vai para as empresas de ônibus, proporção considerada injusta pelas operadoras. 

Soluções temporárias e ausência de gestão

Em fevereiro de 2025, o governo estadual lançou um plano emergencial com contratos provisórios e promessas de subvenções na ordem de R$ 30 milhões. No entanto, a medida tem caráter paliativo e não ataca a raiz do problema: a ausência de licitação definitiva e de uma governança eficiente para o sistema.

A falta de regulação adequada abre espaço para abusos, improvisos e abandono. Enquanto isso, os usuários relatam ônibus sujos, quentes e inseguros. A precariedade do transporte alimentador também sobrecarrega o metrô, que vira a única alternativa para muitos passageiros.

Quem paga a conta é o usuário

No fim das contas, quem depende do sistema metropolitano vive à mercê da sorte: pegar um ônibus velho, quebrado ou superlotado virou parte do cotidiano. A experiência diária é marcada por insegurança, longas esperas e falta de respostas do poder público.

O que se vê é uma combinação explosiva: frota envelhecida, empresas fragilizadas e um Estado que falha em garantir um modelo sustentável de mobilidade para quem vive fora da capital, mas precisa dela para trabalhar, estudar e viver.


Próximo capítulo: Quem realmente comanda o transporte metropolitano?
Vamos revelar os bastidores da estrutura que sustenta — ou afunda — o sistema, os interesses por trás da falta de licitação e como tarifas, integração e omissão política moldam o caos do transporte na RMS.

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