Opinião

O Dia a Dia de quem depende do Transporte Metropolitano de Salvador

Seguindo a nossa série de reportagens com o tema “O caos do transporte metropolitano de Salvador”, hoje vamos mostrar um pouco do dia a dia dos usuários que dependem do sistema.

Para quem se desloca de Salvador e das cidades da Região Metropolitana para trabalhar, estudar, buscar atendimento de saúde ou realizar outras atividades, utilizar o ônibus metropolitano é um desafio diário. Acordar antes das 5h, enfrentar longas caminhadas até o ponto, filas, ônibus lotados e atrasos já virou rotina.

E não estamos falando de um caso isolado: são centenas de milhares de trabalhadores, estudantes e donas de casa que saem da região de Abrantes, Jauá, Dias D’Ávila, Simões Filho, Lauro de Freitas, Camaçari e várias comunidades que fora a RMS. Para essas pessoas, o dia já começa em uma corrida contra o tempo e contra a precariedade.

Eu saio de casa às 4h40 da manhã e só chego no trabalho às 7h20. Tem dia que perco o horário porque o ônibus quebra no meio do caminho.”
Camila, 29 anos, moradora de Areias. Trabalha em um shopping na capital.

“Já cheguei a descer do ônibus e ir andando no acostamento da Estrada do Coco porque não andava mais. Ninguém respeita a gente.”
Seu Zé, 56 anos, pedreiro em Salvador, morador de Monte Gordo.

Esses são apenas dois dos inúmeros depoimentos colhidos em pontos de ônibus e terminais da região. Há quem enfrente de três a quatro horas de deslocamento por dia, em pé, sem ar-condicionado e ainda precise pagar duas ou mais passagens devido à ausência de integração entre os modais.

O maior problema do transporte público hoje é a falta de responsabilidade do Estado e das prefeituras. O Estado empurra para a população um sistema que não tem a menor condição de operar. Tem empresa que roda com 70% da frota velha, não limpam os veículos, e eles sequer oferecem o mínimo de qualidade para os usuários.” Foi o relato de Josué Nazaré, morador da orla de Camaçari, que acompanha de perto o caos no sistema.

 

Trabalho, estudo e saúde comprometidos

A ineficiência do transporte impacta diretamente a produtividade no trabalho, o rendimento escolar e o acesso aos serviços de saúde. Há pacientes que perdem consultas por não conseguirem chegar a tempo em hospitais da capital. Estudantes que chegam exaustos às aulas e retornam para casa depois das 22h.

A sensação de abandono é constante: o transporte metropolitano não atende à realidade de quem mais precisa dele.

Quem fiscaliza isso?

A AGERBA, Agência Estadual responsável pela fiscalização, atua com baixo poder de controle e punição. As empresas seguem operando com atrasos, veículos em péssimas condições e sem qualquer diálogo real com a população. Reclamar por telefone ou aplicativo é quase inútil.

As prefeituras, por sua vez, permanecem inertes diante do problema. Não cobram do Estado um sistema de transporte que garanta dignidade aos seus munícipes. O descaso é agravado pela omissão dos órgãos municipais de trânsito, que deveriam fiscalizar os coletivos que circulam nos perímetros urbanos.

A rotina de quem depende do transporte público metropolitano é marcada pelo improviso, pela espera e pela falta de perspectivas. Enquanto o poder público assiste de braços cruzados, a população segue contando os minutos — e os prejuízos — de mais um dia perdido no caminho.

Próximo capítulo

Em nossa próxima reportagem da série, vamos abordar a Infraestrutura e Logística dos terminais, os corredores viários, as condições da frota e a logística atual do sistema. Vamos entender se a Região Metropolitana de Salvador está preparada, ou não, para sustentar o crescimento urbano e o fluxo diário de pessoas.

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